quarta-feira, 9 de dezembro de 2009


Olá. Chamai-me Ismael. Assim começa um dos livros mais empolgantes da literatura mundial: Moby Dick.
Olá, chamai-me Fabim, assim encerro a saga deste pirata que ora lança sua âncora em terras firmes, deixa sua vida de aventuras errantes e começa sua vida de aventuras da alma, da calma e do coração, aventuras maiores, mais emocionantes e deliciosas.
Agradeço todos os amigos que seguiram de alguma maneira este blog, aqueles que leram e escreveram, aqueles que só leram, mas não escreveram, aqueles que deram uma passada de olhos.
Durante dois anos e três meses refleti sobre a vida, poetei, pensei, vivi, chorei, emocionei e fui emocionado, pensei e fui pensado, imaginei e fui imaginado. Coloquei minhas dores, meus fantasmas, minhas cicatrizes, mas mais ainda coloquei meus saberes, meus sabores, minhas alegrias, meus sonhos e sabedorias. Naveguei, surfei, voei, sonhei...vivi.
Mas é chegada a hora da morte, coisa simples é a morte, já bem disse Vinicius de Moraes, de repente não se vive mais, coisa bela é a morte, que é o fim de todos os milagres da vida, já disse Manoel Bandeira, coisa natural é a morte, disse-me o Inca que me guia, disse-me a sabedoria dos ancestrais, pois a morte é sinal de nascimento, após toda morte vem um nascimento, após todo nascimento vem uma morte, pois se esse blog morre, outro nascerá em breve e será comunicado a todos, mas é chegada a hora desse blog morrer, morrer porque cumpriu sua função, morrer porque o pirata deixa seus dias de errância e o druida se metamorfoseia em amauta e segue para o meio do cerrado, para o Planalto Central, para sua essência e sua origem, para se transformar em flor, em sol, em sonho e mel.
Fiquem tranqüilos, em breve, receberão o convite para a nova aventura deste amauta, um novo blog, cheio de pensamentos e sonhos, de realizações e pulsares de quazares. Aqui se encerra um ciclo, a circunavegação terminou, viver vivi, me aventurar me aventurei, sonhar sonhei, agora é hora de deixar o mar para outros navegadores, para outros sonhadores, agora é hora de plantar e semear, de fincar raízes para criar galhos que dêem folhas e flores que me farão alcançar o universo e voar para onde quiser, deixo os dias de navegação com a alegria daqueles que cumpriram a missão.
Agradeço a todos que contribuíram, contribuem e contribuirão com meus sonhos e realizações, agradeço sobretudo à minha Iara de olhos verdes, primeira leitora, primeira “acreditadora”, amada eterna que sonha e realiza comigo...
Não preciso que me dêem mais o horizonte, pois descobri que o horizonte está em mim...
Um beijo no coração
Fabim Martins

terça-feira, 1 de dezembro de 2009


Estou devendo a mim mesmo escrever no blog. Mudança de casa, correria no trabalho, cansaço de final de ano, enfim, muitos são os motivos, mas nenhum verdadeiramente que me satisfaz, pois há muito descobri que minha melhor terapia é escrever.
Faz tempo, também, não escrevo sobre futebol, falha grave para um apaixonado pelo ludopédio como eu!
Na verdade esperava escrever sobre o São Paulo, talvez sobre a subida de divisão do Vasco da Gama, mas eis que descubro a América, ou melhor, o América, não um América qualquer, mas o América do Rio de Janeiro, de tantos ilustres torcedores, dono de um dos hinos mais bonitos que conheço, de uma história fantástica, mas que, como tantos outros times brasileiros foi se perdendo e se afundando em dívidas e desmandos, até ser sugado pela segunda divisão do futebol carioca.
Belo dia, vejo surgir na tela de minha TV, por obra de algum abnegado torcedor, no canal SPORTV, o jogo em que o Ameriquinha de José Trajano, Lamartine Babo, Tim Maia e tantos outros, disputa uma partida em que, saindo vencedor, se torna campeão da segunda divisão do Rio, mais do que isso, conquista um título que não vê a vinte e sete anos.
Bem, me dirá com toda certeza o honrado e único leitor deste blog, e eu com isso?
Pois digo que há muito nada me emocionou tanto no futebol quanto ver a ascensão do Ameriquinha, com direito a vinte minutos de Romário em campo, homenageando seu pai, vi ali um resgate de minha infância, da paixão pura e simples do futebol, de algo que não existe mais na disputa acirrada que se tornou o show esportivo, que não cabe mais nos grandes eventos em que cada vez mais a palavra business se faz presente e a palavra paixão ausente.
Ingenuidade, talvez? Saudosismo, com certeza!
O certo é que vi e me emocionei com a paixão de torcedores de um time que tem uma história rica, porém desprezada pela maioria dos mundanos como eu, que só é cultuada e cuidada por quem nunca perdeu o dom da paixão, por quem sabe que futebol, futebol verdadeiro ainda é lugar de aficionados, de doidos varridos que lotam uma vã em um dia de chuva apenas para ver seu time.
Emocionei-me porque lembrei de mim mesmo, de como, envolvido na torcida, encantado pelo show, perdi a essência, perdi o sentido do verdadeiro torcedor. Que a volta do América e de tantos outros times de minha infância que tentam ressurgir, tragam a beleza e a essência que é a paixão pela arte do futebol e não pelo negócio e audiência que os megaeventos proporcionam.


Para Denise que acompanhou o jogo comigo e que se torna a cada dia mais especialista em futebol
Give me the horizon

quinta-feira, 12 de novembro de 2009


Acho que foi a Regina Casé que disse que, no Brasil, todos deveriam adotar um vira-lata, pois somos um país de vira-latas, ou seja, mestiços de europeus, negros, africanos, japoneses, árabes, nada mais lógico, então, que o animal de estimação preferido do povo fosse um vira-lata, seja cachorro ou gato.
Lembrei-me dessa história faz poucos dias quando, por motivos de termos comprado nossa chácara, querermos um outro cão, para fazer companhia para a Petucha e para nos dar maior segurança. Passamos, então a pensar na índole do cão, precisava ser amigo, companheiro, brincalhão, boa-praça, gostasse de outros animais, afinal temos os nossos gatos Tom e Serena e fosse de porte grande.
Bem começamos a procurar, vimos várias raças lindas, lindos filhotes que quase nos pediam para serem levados para casa, mas os preços eram sempre absurdos, mesmo para o melhor amigo do homem.
Eis que de repente, não mais que de repente, surge um anúncio no jornal avisando de uma feira de doações de animais. Nada mais “nossa cara” do que uma feira desse tipo. Nossos gatos e a Petucha são 100% vira-latas, a ponto de sequer termos idéia de qual sua raça preponderante.
Bem, fomos lá e nos apaixonamos por um mestiço de Labrador, todo preto, vira-lata como todos os outros, que se aninhou em nosso colo e dele não mais saiu. Assim chegou o Tobias em nossa vida.
Fico pensando porque as pessoas querem tanto cachorros de raça, fazem questão de ter pedigree e outros quetais, mera bobagem, não há nada mais fiel, nada mais sincero que o amor de um cãozinho sem raça definida, nada mais apaixonante que saber que estamos dando um lar para um cachorrinho que iria para a rua, sofrer, provavelmente viver de restos e maus-tratos até morrer. Já havia feito isso com a Petucha e a Denise, com o Tom e a Serena, agora temos mais um serzinho maravilhoso, que é todo amor, bagunça e descobertas.
Ele tem nos ensinado a alegria de ser criança, de ser um tratorzinho de alegria, ele tem nos ensinado que devemos ajudar o mundo cada vez mais, o próximo cada vez mais, seja ele um animal irracional ou racional, sim, pois todos somos animais, todos comungamos da mesma mãe, a terra, todos temos a mesma nutricionista, a natureza, todos habitamos o mesmo céu e pisamos sobre o mesmo solo.
Sim, somos um país de vira-latas, saudáveis e batalhadores, somos um país de vira-latas que não se quebram nem mesmo diante da maior tempestade e não se trata de ufanismo do tipo “sou brasileiro e não desisto nunca”, mas sim de algo genético, algo inerente a todos os povos de lugares em que há mais dificuldades e que encontram motivos para sorrir. Vi muito disso na minha viagem ao Peru, vi muito disso em minhas andacás por esse país e não descanso feliz enquanto não puder saborear ainda mais.
Há uma amiga que me diz que ganho muitos pontos com São Francisco de Assis, talvez eu ganhe mesmo, há muito deixei de ser católico, de ter uma religião formal, mas sempre gostei desse santo que muito tem a ver comigo, no desprendimento e no que as pessoas afirmam ser loucura, mas nada mais é que a comunhão com a vida, com a natureza e reconhecer que só somos bons e completos quando fazemos o bem para o outro de maneira incondicional...
Obrigado Tobias por me lembrar disso!
Para Denise que faz da vida do Tobias uma imensa brincadeira
Give me the horizon

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


Desde que comecei minha carreira de professor, digo aos meus alunos que, se eles não saírem sabendo nada de gramática, nem uma única regra de colocação pronominal, não fizerem idéia do que é um zeugma ou uma elipse, mas forem pessoas melhores que farão desse mundo um lugar melhor, eu fiz a minha parte. Não que eu não ensine o que deve ser ensinado, ensino, só vejo isso como o meio e não o fim de minha prática como educador.
Quero que os alunos aprendam a sonhar, a poetar, a saborear a vida, a saber lidar com a tristeza, a refletir sobre o que é melhor para o todo e para todos.
Por isso, sempre, ensinei muito mais do que o conteúdo programática das escolas em que trabalhei, sempre fui além, na verdade nunca me preocupei muito com esse tipo de conteúdo, pois o conteúdo, para mim, da escola, de qualquer escola, é a vida! Saber gramática, matemática, física, química, biologia só serve para alguma coisa se nos faz viver melhor, se nos trona mais felizes e integrados a esse universo maravilhoso em que vivemos, deliciar-se com um livro só é importante se me faz ver o mundo de outro jeito e todos os livros nos abrem portas maravilhosas, muito embora, algumas escolas ainda hajam como na antiguidade, proibindo títulos, utilizando tribunais da inquisição para determinados autores, o que me deixa triste, simplesmente triste.
É então que recebo uma mensagem em meu Orkut de uma ex-aluna maravilhosa, a Ana Paula, perguntando-me se eu já tinha montado minha “escola da vida”.
Bem, Ana Paula, confesso que ela sempre esteve em mim, porém estava escondidinha em algum canto do esquecimento, mas com sua fala, com o apoio de minha musa e com a compra de nossa chácara, ela renasceu com força plena, está de velas abertas, pronta para navegar nos mares tormentosos do desafio!
Nesta escola não haverá paredes, portanto não haverá salas, não haverá um regime rígido, nem matérias enfadonhas, ela será composta por sonhos e pensamentos, por vontades e momentos, será feita de sorriso e lágrimas, de poesia e prosa, ensinará a empinar pipa e a solucionar dilemas da vida, ensinará a abraçar, beijar, amar, ser mais solidário, humano, cooperativo, ensinará que tocar o próximo não é pecado, que fazer o bem não é para os fracos, nem para os trouxas, que ser honesto não é ser otário, que somos completamente diferentes e, portanto, maravilhosos. Essa escola terá como matérias o falar e o ouvir, o fazer silêncio, o contemplar, terá como guias, meus mestres da natureza, o vento e a pedra, tratará de filosofia e sabedoria, ensinará que somos mestres-aprendizes, por isso todos ensinamos e aprendemos ao mesmo tempo, sem hierarquia, sem jogos de poder. Ela terá horários de acordo com nossa necessidade e vontade, por isso não haverá sinais sonoros, mas a música de nosso coração.
Muitos dirão que é um sonho tolo, de um ingênuo poeta-educador, pois os sonhos mais tolos são aqueles mais bonitos, são aqueles que nos fazem sorrir em meio a tanta coisa ruim, em mio a tanta feiúra e cinza de horas e toras. Essa escola está nascendo, está no plano dos sonhos realizáveis, pois está em mim, em você, em todos nós, uma escola que ensine a viver e a acreditar, a respeitar e a construir, que faça com que sejamos cada vez mais, melhores e não “os melhores”, esta escola está pulsando, é um cometa reluzente prestes e descer lentamente no solo de Brasília e florescer como uma linda orquídea em minha chácara...
Para Denise que projeta, sonha, planeja e realiza com este poeta
Para todos os meus eternos alunos
Give me the horizon

sábado, 31 de outubro de 2009


Sempre tive problemas com a palavra tolerar, na verdade tenho aversão a ela! A palavra Tolerância me remete à mesma etimologia da palavra aguentar, portanto, tolerar tem o sentido de suportar, o que, de modo algum parece adequado ao convívio humano. Se tolero alguém, não o respeito, apenas o aguento, suporto-o, enquanto me for conveniente ou pelo tempo que eu resistir. Talvez daí venha o pouco ou nenhum respeito à fé, ou falta dela, de cada um, talvez venha daí o fato de não sabermos conviver pacificamente com o diferente, com aquele que não é como eu, que vive com outros valores, com outros parâmetros.
O caso da estudante universitária ameaçada por centenas de pessoas em São Paulo me remete à palavra tolerância. Tolero o outro enquanto me é conveniente. Quando isso, de alguma forma, me incomoda, ultrapasso o limite da boa convivência e me dou o direito de agir como bem entender. Não há como negar que foi isso que a turba formada na universidade fez. Para quem não sabe, a moça foi com um vestido tido como inconveniente ou ofensivo à moral e aos bons costumes dos puristas. Não sou purista, nem puritano, também não vim ao mundo para julgar ninguém, muitos menos sou candidato a santo. Já fiz muitos comentários maldosos sobre roupas alheias e sei que também devo ter sofrido com diversos comentários. Comentar, criticar, até mesmo criar pequenas piadas entre amigos, por mais errado que seja, faz parte da alma humana, quando isso passa para a agressão, para a violência, começa um problema.
A moça em questão foi com um vestido considerado curto demais para frequentar o ambiente acadêmico. Foi barrada na entrada da faculdade? Não! Algum professor pediu para que se retirasse e vestisse algo mais adequado? Não! O que se viu foi uma monstruosidade.
Professores e alunos aumentando um burburinho, criando uma rede de ódio e violência que culminou com o encurralamento da moça em uma das salas de aula da faculdade. Do lado de fora, algo em torno de setecentas pessoas, iradas, agressivas, tentando algo. Que algo? O que fariam se porta fosse aberta? Linchariam a moça, arrancariam seu vestido e a deixariam apenas em trajes sumários? Agrediriam? Alguém teria a idéia brilhante de estuprá-la para mostrar que ela era culpada?
Li alguns relatos de estudantes da dita faculdade que disseram que mais parecia um culto de intolerância religiosa, como se ninguém nunca tivesse usado roupas mínimas e outras moças da mesma faculdade não fossem com roupas tão ou mais ousadas. Note-se que estamos falando de uma instituição que deveria formar advogados, engenheiros, administradores, professores, médicos, psicólogos que ajudem o outro, que façam do mundo um lugar melhor, mas qual o quê? Que trabalho com o ser humano deve ser feito em um local como este? Forma-se profissionais de alto nível, doutos, acadêmicos, competentes profissionalmente, mas e os seres humanos? E os cidadãos?
Não, isso não é função das academias, não é função das escolas, formar cidadãos é bonito escrito nos projetos políticos pedagógicos, é bonito escrito nas missões, mas na prática ninguém está preocupado com isso, afinal temos que ensinar o conteúdo, o currículo tem que ser cumprido!
Lembro-me do personagem de Robin Willians em Sociedade dos Poetas Mortos, de Kevin Kline em Clube do Imperador e, sobretudo, de Sidney Poitier em Ao Mestre com Carinho e Morgan Freeman em Meu Mestre Minha Vida, professores que mais do que conteúdos, ensinavam vida aos seus alunos, que mais do que um profissional sabiam ensinar seus alunos a serem...humanos...
Para Denise, que sonha por um mundo melhor comigo
Give me the horizon

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


Há momentos especiais na vida da gente que não precisam de muitas palavras nem maiores explicações. Na verdade explicações tornam-se sempre desnecessárias quando entendemos a magia da vida, a beleza do universo e o encanto de cada dia.
Vivemos muito acelerados, vivemos de uma maneira errada, preocupados demais com o trabalho, com pouco tempo para curtir a família, os lugares e situações pelos quais passamos e vivemos. Outro dia minha musa percebeu que estávamos ouvindo pouca música, simplesmente havíamos deixado de ouvir música, sem nenhum motivo aparente. A música sempre teve um papel importante na vida da humanidade, desenvolve a sensibilidade, faz com que paremos para nos encantar com sons e notas. Voltamos a ouvir muita música, não importa o gênero desde que seja boa, como já bem disse o grande Tião Carreiro.
Nesse momento especial que estamos vivendo, da aquisição de uma chácara, percebemos que nossa vida mudará para muito melhor, pois nosso ritmo será outro, embora ainda presos a horários e ao mundo “concrético” de uma Brasília cheia de vida e trabalho, moraremos em um núcleo rural, ilha de tranquilidade e de ritmo diferente. Espero cultivar mais isso, espero cultivar essa paz e realmente renascer nesse lugar maravilhoso.
Costumo dizer que estamos fixando as raízes de nossa árvore em Brasília para que nossos galhos alcancem o céu e espalhem nossas folhas e frutos pelo universo. A vida é simples, complicamos tudo, demais, agora quero simplificar, quero simplesmente deixar a vida fluir, me envolver com a beleza do universo, agradecer Pachamama e o Grande Espírito pela beleza de estar vivo e de ser tocado pelo seu carinho, quero caminhar pelo jardim descalço, quero beber suco das frutas que colherei, quero não pensar em nada, apenas contemplar a vida que passa, quero namorar eternamente com minha Iara de olhos verdes, quero mergulhar na alegria de sermos simples e de viver na simplicidade calma da natureza.
Quero ser mais natural e menos preocupado, quero ser menos ocupado e deixar a vida me levar na sua naturalidade, conversar mais com meu mestre vento e entender, definitivamente, que não precisamos de explicações, que não há verdades, que é melhor ser alegre que ser triste, a tristeza não existe quando estamos do lado de quem amamos, quando acreditamos que tudo é possível e que só depende da gente.
Quero receber mais os amigos e sair menos. Quero celebrar a vida com intensidade e viver a verdade simples de que viemos aqui para amar e ser felizes, para não sermos mestres e sim, aprendizes, quero sonhar e realizar mais e ajudar o mundo a ser um lugar melhor, cada vez melhor, pois esse é meu jeito de agradecer tudo que recebo deste grande tecelão de milagres que é o universo.
Para Denise, minha musa, que constrói, a cada dia, uma vida melhor
Give me the horizon

terça-feira, 22 de setembro de 2009


Já escrevi isso em alguns outros textos e contei a amigos não sei quantas vezes. Nos idos de 1977, eu era um aspirante a fedelho que saía correndo, muitas vezes, literalmente, da escola para ver, diariamente, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, em sua versão mais antiga. Mal entrava em casa, mala para um lado, roupa jogada para o outro, sentava para ver cada capítulo com a delícia dos olhos infantis e a imaginação solta.
Os tempos eram outros, havia menos violência, principalmente em cidades menores do litoral paulista, como São Vicente, era-se permitido crianças brincando soltas e caminhando pelas ruas e calçadas da cidade e a TV, ainda engatinhante, possuía vários, bons, programas para as crianças.
O Sítio era um deles. Lembro com carinho de vários capítulos, das músicas, das aventuras que eu reproduzia com os amigos na escola ou no pátio de meu prédio. Havia personagens impagáveis, mas de todos, certamente, embora não o meu preferido, era a Emília. Além de impagável, era petulante, revolucionária, instigante, fazendo nossas “cacholas” funcionarem. A primeira atriz por trás da personagem chamava-se Dirce Migliacio, bem pouco tempo depois ela produziria outra impagável personagem em “O Bem Amado”, a irmã mais baixinha e espevitada das irmãs Cajazeiras, o texto mais adulto e político de Dias Gomes, era meio inteligível para uma criança, fui entendê-lo já adolescente, vendo reprises ou o seriado que a Globo resolveu fazer baseado na novela. Outro personagem impagável que acompanhei foi a Dona Conceição em “ A Gata Comeu” em um dueto maravilhoso com o, também já falecido, Luiz Carlos Arutin, que fazia o Seu Oscar, um galanteador inveterado e explorador da mulher.
Acho que foi Rubens Ewald Filho que disse que a magia da TV e do cinema está justamente em tornar as pessoas eternas, em não deixá-las morrer nem envelhecer.
No dia em que essa atriz que povoou meus dias de infância e adolescência e que me trouxe tanta alegria faleceu, esse é um alento que me deixa feliz. Eram dias em que as bundas não abundavam na TV, em que as crianças eram tratadas como crianças e não como consumidores em potencial, em que o sexo era gostoso porque era feito escondidinho e não esfregado na nossa cara, em que grandes nomes de nossa MPB eram ouvidos pelas crianças que, hoje, por sinal, são adultos com bom gosto musical, em sua maioria.
Tempos que são eternos em imagens, em sentimentos e sentidos, que deixaram marcas em minha formação como pessoa. Tempos em que ler e ver textos de Monteiro Lobato não era uma atividade chata da escola, nem uma leitura obrigatória, era um momento de exercitar a imaginação, de brincar com a criatividade, de usar o pó de pirlimpimpim para viajar para outros mundos, de bodoque em punho, enfrentando Cucas e Sacis com a sabedoria de um preto velho e o carinho da natureza.
Da turma original, Dona Benta, Tia Anastácia, Tio Barnabé e Visconde de Sabugosa já estão lá no céu do Sítio, convivendo e trocando histórias com o próprio Monteiro Lobato, agora chega a Emília para bagunçar tudo e agitar as nuvens.
Hoje vou dormir olhando para o céu, com certeza ele estará bem mais divertido e colorido...

Para Denise que lembra de episódios do Sítio
Give me the horizon